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ALIMENTAÇÃO DO FILA
BRASILEIRO
POR: ALEXANDRE HERCULANO BORGES DE ARAÚJO
-PROFESSOR DA CADEIRA DE NUTRIÇÃO ANIMAL DO
INSTITUTO DE ZOOTECNIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE
JANEIRO
-ZOOTECNISTA - UFRRJ
-MSc - CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS-UFRRJ
-PhD - QUÍMICA BIOLÓGICA-UFRJ/U.OF
WISCONSIN-EUA
I) INTRODUÇÃO
O interesse
pela obtenção de conhecimento sobre a nutrição de cães é bem
recente quando comparado a outras espécies, principalmente aves
e suínos. Portanto hoje a quantidade de conhecimentos relativos
a estas duas espécies, supera em muito, aqueles referentes à
espécie canina. Não obstante, devido ao grande interesse
comercial envolvido, estamos experimentando um aumento
vertiginoso nas pesquisas e na produção de conhecimento na área
de nutrição de cães. Sendo assim, nos deparamos com uma grande
diversidade de marcas e qualificações relativas aos alimentos
industrializados, fato que muitas vezes gera dúvidas e confusões
sobre a escolha de um alimento.
Sempre fui um apreciador de cães de guarda e, por
isso, criei Boxers, Bullmastiffs e mais recentemente tive
contato com a raça Fila Brasileiro raça esta que aprendi a
apreciar e respeitar, principalmente pelo temperamento e pela
sua rusticidade. Meu primeiro contato com estes cães foi por
intermédio de Dona Marília Pentagna que muito gentilmente
recebeu a mim e à minha esposa em seu canil iniciando então uma
série de visitas e discussões sobre a raça que ainda ocorrem.
Posteriormente fomos apresentados ao seu sobrinho Joaquim mais
conhecido como Quinzinho, grande entusiasta e, assim como sua
tia, grande conhecedor da raça que me fez o pedido para escrever
este artigo, o que faço com grande prazer. Hoje somos
proprietários de um casal de filas.
Neste artigo procurarei aliar o meu conhecimento
científico com aquele obtido pela convivência com cães de grande
porte, para fazer uma abordagem genérica sobre a alimentação do
Fila Brasileiro.
II) COMO ALIMENTAR CORRETAMENTE O FILA BRASILEIRO
A) Relação entre a alimentação e as necessidades
nutricionais dos cães
Os cães são
classificados como animais monogástricos (com um estômago único)
e diferentemente dos animais poligástricos (com o estômago
dividido em vários compartimentos, p.ex. os bovinos) não
conseguem digerir com eficiência alimentos ricos em fibras,
portanto, sua alimentação deve conter teores de fibra entre 4 e
6%. O sistema digestivo dos cães é bem mais curto que os dos
animais herbívoros e isso significa que o alimento percorre todo
o seu trajeto em um tempo bem menor, tendo também menos tempo
para ser digerido. A conseqüência deste fato é que a alimentação
dos cães deve ser baseada em alimentos de alta digestibilidade.
Os alimentos industrializados são formulados a
partir das necessidades nutricionais dos cães que são obtidas
por pesquisas feitas em laboratório de nutrição espalhados por
todo o mundo. No Brasil utiliza-se a tabela de exigências
nutricionais elaborada pelo National Reseach Council (NRC),
órgão do Ministério da Agricultura dos EUA (USDA) que compila
dados de pesquisas e, na medida em que novos resultados surgem o
NRC os apresenta em forma de um livro.
As pesquisas mostraram que existem diferenças nas
necessidades de nutrientes de acordo com o tamanho do cão.
Assim, cães de raças grandes e gigantes necessitam de uma menor
quantidade de energia na dieta quando comparados aos cães de
raças pequenas e médias. Este fato deve observado principalmente
nos filhotes. Dessa forma, se o leitor observar os níveis de
garantia dos rótulos das rações para cães destes dois grupos de
raças, verá que aquelas destinadas às raças menores têm maiores
teores de extrato etéreo e proteínas do que as destinadas às
raças grandes. Sendo assim, há comprovadamente, diferenças nas
exigências nutricionais de cães grandes e pequenos. Gostaria de
salientar, no entanto, que ainda não dispomos de dados relativos
às necessidades nutricionais de raças específicas e sendo assim,
as rações para raças específicas que existem no mercado não são
formuladas levando-se em consideração as necessidades
nutricionais das diferentes raças, mas sim aquelas já
disponibilizadas nas tabelas mencionadas acima, acrescidas de
alguns ingredientes.
Para finalizar gostaria de comentar que apesar de
notarmos expressões como “alimento 100% balanceado” ou similares
nos rótulos, lembrem-se que estes alimentos são balanceados na
medida do conhecimento existente hoje, que como anteriormente
mencionado, está longe daquele obtido para outras espécies.
B) Alimentos industrializados mais apropriados
Para começar este tópico, precisamos entender as
diferentes categorias nas quais se enquadram os alimentos
industrializados para cães. Temos então os alimentos econômicos
que têm preços mais baixos, os alimentos premium, que são os
intermediários e os alimentos super-premium, sendo estes os mais
caros. Normalmente as indústrias fabricam rações para todos os
gostos e bolsos, mas algumas se especializaram em alguns dos
segmentos mencionados. A variação do preço dos alimentos dos
três segmentos ocorre devido a fatores como qualidade da matéria
prima utilizada, o que irá proporcionar maior ou menor absorção
no intestino (digestibilidade) e adição de ingredientes com a
finalidade de melhorar a performance atlética, reprodutiva,
prevenir ou minorar sintomas clínicos de algumas patologias.
Estes ingredientes são denominados alimentos funcionais e são
caros, tendo o uso justificado somente nas rações com preço mais
elevado. Como não existe uma normatização para a classificação
destes alimentos por parte do Ministério da Agricultura, são os
próprios fabricantes que classificam os seus produtos em uma das
categorias acima.
Com relação ao teor de umidade temos três categorias
de alimentos. Os secos que têm umidade próxima a 10% que são os
mais comercializados, principalmente pelo menor preço e pela
conservação mais fácil. No entanto, se forem formulados com
altas percentagens de cereais, podem ter palatabilidade muito
baixa, ocasionando a sua rejeição pelo animal. Além dos secos
temos os alimentos classificados como úmidos, cujo teor de
umidade médio é de 85%. Estes alimentos normalmente são bastante
palatáveis, pois são fabricados com quantidades elevadas de
produtos de origem animal (carnes e vísceras), podendo ser
utilizados como alimento único já que são balanceados como as
rações secas. A grande desvantagem deste tipo de alimento é o
preço elevado. Considerando que uma lata de patê tem 340 gramas
e que em média 85% do seu conteúdo é composto de água, podemos
ter uma noção do quão caros são os alimentos úmidos. Para que os
alimentos úmidos fiquem com a consistência de patê, os
fabricantes utilizam ingredientes conhecidos como espessantes
que podem ser amidos ou gomas. Estes ingredientes podem ter
efeito laxativo se o animal consumir alimentos úmidos em grande
quantidade sem que esteja habituado, pela sobrecarga de
carboidratos no intestino o que leva a um processo de
fermentação excessiva. Devemos também considerar que por conta
da grande quantidade de água, para satisfazer as necessidades
nutricionais de um cão a quantidade de alimento úmido a ser
oferecida deverá ser bem maior do que de alimento seco, o que
aumenta consideravelmente o custo da alimentação, principalmente
em relação à cães da raça Fila Brasileiro. Existem ainda no
mercado alguns alimentos classificados como semi-úmidos que têm
mercado bastante restrito no Brasil, por isso, creio não ser
necessário comentar sobre este grupo. Estes conceitos são de
grande valia para que possamos entender um pouco melhor as
opções de marcas existentes no mercado quando temos que escolher
alimentos.
A decisão da aquisição de um alimento para os nossos
cães pode ser baseada em diferentes critérios como a qualidade,
o preço e a facilidade de encontrá-lo no mercado. Como a
alimentação dos cães normalmente é um item bem dispendioso na
criação, devemos nos basear na relação custo benefício quando
escolhemos entre as diversas marcas existentes e no que se
refere a esta relação temos que o grupo dos alimentos premium é
o mais vantajoso, pois é aquele que oferece um maior número de
opções com qualidade bem razoável a preços mais justos. É óbvio
que se for possível fornecer um alimento super-premium este será
sempre a melhor escolha, quando consideramos somente o item
qualidade, mas na prática da criação os custos destes alimentos
são proibitivos. Temos também que considerar os alimentos da
linha econômica, aqueles com preços mais baixos. Em minha
opinião, sempre que possível devemos evitá-los pela baixíssima
qualidade dos seus ingredientes que gera reflexos na sua
digestibilidade, fazendo com que, no fim das contas, o
fornecimento deste tipo de alimento não seja tão vantajoso, pois
o cão terá que comer uma quantidade maior para satisfazer as
suas necessidades nutricionais e dessa forma, o custo da
alimentação irá aumentar. Ademais, os alimentos da linha
econômica normalmente contêm grande quantidade de cereais que
como comentado acima faz com tenham baixa palatabilidade. É
notória a diferença no escore corporal, na pelagem, na
musculatura e, portanto na aparência geral de cães alimentados
com rações melhor qualidade quando comparados àqueles
alimentados com rações de qualidade muito baixa.
C) Alimentos industrializados X Alimentos
caseiros
Os
criadores mais antigos devem se recordar que até aproximadamente
os anos de 1980, não havia alimento industrializado disponível
no Brasil e, portanto a alimentação dos seus cães era feita
exclusivamente com alimento preparado no canil pelos próprios
criadores. O advento das rações comerciais foi de grande valia
para os criadores porque diminuiu muito o trabalho despendido
com a alimentação de seus animais tanto na lida diária quanto
nas exposições, quando, não raro, seus cães têm que se deslocar
por grandes distâncias. Estes alimentos podem alimentar os cães
de forma mais equilibrada já que são formulados levando-se em
consideração as suas necessidades nutricionais (pelo menos as
boas marcas). Entretanto nossos cães podem perfeitamente ser
alimentados com formulações caseiras, utilizando-se para isso
ingredientes facilmente encontrados no mercado. O custo da
alimentação caseira pode ser comparável ao de um alimento
premuim de qualidade mediana mas garanto-lhes que a qualidade é
bem superior. Entretanto temos que observar as proporções
corretas quando cuidamos de preparar os alimentos caseiros pois
do contrário estaremos alimentando os nossos animais de forma
errônea o que pode ter conseqüências indesejáveis. Para o
preparo das formulações caseiras pode-se utilizar ingredientes
como o arroz, carne, aparas e pontas de carne (que contenham uma
boa proporção de carne e não somente pelanca ou gordura),
pescoço de frango, vísceras (coração, pulmões, fígado), fubá e
vegetais como repolho, couve, cenoura, beterraba não esquecendo
também de uma fonte de gordura que pode ser de frango ou banha
de porco. As proporções depois do alimento cozido podem ser de
aproximadamente: 40% de arroz ou fubá, 50% de carnes, vísceras
ou pescoço 5% de vegetais e 5% de gordura. Deve-se ressaltar que
o alimento deve ser muito bem cozido para que os amidos do arroz
ou do milho possam ter boa absorção no intestino. Devemos dar
preferência para o arroz. Com relação à fonte de proteínas
podemos utilizar somente uma ou mesmo uma mistura de duas ou
mais, porém, devemos utilizar o fígado com parcimônia para
evitar diarréias causadas pelo excesso de minerais contido nesta
víscera. A proteína contida nas vísceras não é de tão boa
qualidade quanto aquela das carnes e do pescoço e a víscera com
o melhor valor protéico é o coração.
Para garantir que não haverá carência de minerais e
de vitaminas nos animais, deveremos utilizar um suplemento
alimentar (aminomix, glicopan e etc.) duas vezes por semana.
Alimentar cães com estas formulações caseiras tem
vantagens como a da melhor qualidade dos ingredientes e melhor
palatabilidade e digestibilidade do alimento e desvantagens como
maio dispêndio de tempo na sua preparação e conservação mais
complicada já que estragam mais facilmente. Cabe a cada um
escolher de acordo com as suas preferências.
D) Manejo alimentar
Filhotes – Sendo a raça Fila
Brasileiro de grande porte, devemos ter muito cuidado com a
alimentação dos filhotes para evitar o crescimento
excessivamente rápido que predispõe o animal às patologias dos
ossos e das articulações como, por exemplo, a displasia
coxofemural e do cotovelo. Assim sendo, rações com alto valor
energético devem ser fornecidas em pequena quantidade ou mesmo
evitadas. Hoje existem no mercado alimentos específicos para
filhotes de raças grandes e gigantes que são especificamente
formulados e garantem um crescimento mais lento, porém, estes
têm valor elevado. A super alimentação dos filhotes deve ser
evitada a todo custo, inclusive suplementações com cálcio e
outros suplementos que aceleram o crescimento. O fato de um
filhote crescer mais vagarosamente não significa que ele terá
tamanho menor como é apregoado por alguns.
Até os 6 meses o filhote deverá ser alimentado
pelo menos 3 vezes ao dia para favorecer a absorção de
nutrientes. O alimento não deverá ser fornecido à vontade, sendo
um erro manter os vasilhames com alimento sempre cheios.
Fêmeas prenhes e paridas – Os cuidados
com a alimentação e com a sanidade destes grupos, são
fundamentais, pois resultará em filhotes sadios e na recuperação
mais rápida da mãe que mais dificilmente terá problemas
reprodutivos no próximo cio. No início da prenhez as
necessidades nutricionais da cadela não aumentam
consideravelmente o que irá ocorrer somente nas ultimas três
semanas antes do parto. Nesta fase a fêmea tende a ingerir menos
alimento já que grande parte do seu abdome está ocupada pelos
seus filhotes e dessa forma a sua alimentação deve ser fornecida
várias vezes ao dia e deve ser composta por alimento altamente
digestível e por isso é prática comum a substituição da ração de
adultos pela de filhotes o que dá bons resultados. Assim como
para os filhotes, devemos suplementar as cadelas gestantes
somente em situações extremas, pois esta prática pode resultar
em sobrepeso exagerado e dificultar o parto.
Após a parição as necessidades nutricionais da fêmea
aumentam muito, podendo ser até 2,5 vezes maiores que as das
fêmeas sem filhotes. Portanto é nesta fase que devemos dispensar
grande cuidado com a cadela para evitar problemas que causem
efeitos nocivos ao seu ciclo reprodutivo com conseqüências em
futuras coberturas e na sua produção de leite. As cadelas devem
receber alimento de alta digestibilidade e grande concentração
de energia sendo recomendada a substituição do alimento de
adulto pelo de filhotes com o seu fornecimento várias vezes ao
dia. Ao notar que a condição corporal da cadela sofreu grande
deterioração, o criador pode suplementar a sua alimentação com
produtos existentes no mercado para essa finalidade.
Animais adultos –
O manejo alimentar dos animais adultos tanto
machos quanto fêmeas sem filhotes é bem simples e resume-se em
fornecer alimentos de forma fracionada em quantidades adequadas
para minimizar a probabilidade de ocorrência da torção gástrica
que acomete não somente os cães da raça Fila Brasileiro como
também de várias outras raças. Além disso, o monitoramento da
condição corporal dos animais é de grande importância,
principalmente no que se refere ao excesso de peso, condição que
sabidamente favorece o agravamento de doenças articulares e
predispõe o animal a doenças metabólicas como o diabetes.
III) ROTULAGEM DOS ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS
Neste tópico vamos comentar sobre o significado de
algumas informações contidas nos rótulos dos alimentos para cães
para facilitar a sua interpretação e a avaliação destes
produtos.
Os níveis de garantia são as percentagens mínimas
ou máximas, dependo do item, que o fabricante garante que estão
presentes no alimento. Estas percentagens são obtidas em
análises feitas em um laboratório de nutrição e são úteis para
comparar diferentes produtos ou para nos ajudar a avaliar a
relação custo-benefício de um produto. Devemos atentar para o
fato de que estas percentagens nada nos dizem sobre a qualidade
da matéria prima utilizada na fabricação do produto e, dessa
forma, um alimento com uma percentagem menor de proteína não
necessariamente é de qualidade inferior à outro com um
percentual maior. Então temos que o termo umidade é relativo à
quantidade de água contida no alimento, proteína bruta é o teor
de proteína, fibra bruta o teor de fibra (normalmente entre 4% e
6%), extrato etéreo refere-se ao teor de gordura e cinzas ou
matéria mineral designa o percentual de minerais do produto.
Analisando os rótulos dos diferentes alimentos observamos que
aqueles classificados como super-premium têm percentagens de
proteína bruta e extrato etéreo mais elevadas e por isso
apresentam altos teores de energia quando comparados aos
alimentos dos grupos premium e econômico. Além disso os
alimentos super-premuim têm percentagens menores de fibra e
contam com a adição de fibras especiais que melhoram a absorção
intestinal dos nutrientes, além de minerais quelatados que
também são melhor absorvidos. |