Alexandre é daquelas pessoas consideradas “de casa” no Canil Boa Sorte.  Sua presença constante em visita ao Canil Boa Sorte o tornou, juntamente à Marília, sua esposa, um daqueles amigos fiéis que acompanham de perto nosso trabalho.

          Suas ligações com a cinofilia vêm desde jovem e hoje atuando como professor em uma das Universidades Federais de maior prestígio na área rural, reúne um vasto conhecimento técnico que, atenciosamente, reparte conosco com este excelente artigo.

          Alexandre é daqueles profissionais que converge uma elevada formação técnica, com um ponto de vista bastante simples e objetivo, apoiado em sua já longa experiência dentro da Cinofilia.

          Especialista na raça Boxer, Alexandre se rendeu ao Fila Brasileiro há tempos. Muito boa notícia para a raça, a qual somente se beneficia com sua proximidade.


ALIMENTAÇÃO DO FILA BRASILEIRO

 

POR: ALEXANDRE HERCULANO BORGES DE ARAÚJO

-PROFESSOR DA CADEIRA DE NUTRIÇÃO ANIMAL DO INSTITUTO DE ZOOTECNIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

-ZOOTECNISTA - UFRRJ

-MSc - CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS-UFRRJ

-PhD - QUÍMICA BIOLÓGICA-UFRJ/U.OF WISCONSIN-EUA

 

I) INTRODUÇÃO

 

            O interesse pela obtenção de conhecimento sobre a nutrição de cães é bem recente quando comparado a outras espécies, principalmente aves e suínos. Portanto hoje a quantidade de conhecimentos relativos a estas duas espécies, supera em muito, aqueles referentes à espécie canina. Não obstante, devido ao grande interesse comercial envolvido, estamos experimentando um aumento vertiginoso nas pesquisas e na produção de conhecimento na área de nutrição de cães. Sendo assim, nos deparamos com uma grande diversidade de marcas e qualificações relativas aos alimentos industrializados, fato que muitas vezes gera dúvidas e confusões sobre a escolha de um alimento.

            Sempre fui um apreciador de cães de guarda e, por isso, criei Boxers, Bullmastiffs e mais recentemente tive contato com a raça Fila Brasileiro raça esta que aprendi a apreciar e respeitar, principalmente pelo temperamento e pela sua rusticidade. Meu primeiro contato com estes cães foi por intermédio de Dona Marília Pentagna que muito gentilmente recebeu a mim e à minha esposa em seu canil iniciando então uma série de visitas e discussões sobre a raça que ainda ocorrem. Posteriormente fomos apresentados ao seu sobrinho Joaquim mais conhecido como Quinzinho, grande entusiasta e, assim como sua tia, grande conhecedor da raça que me fez o pedido para escrever este artigo, o que faço com grande prazer. Hoje somos proprietários de um casal de filas.

            Neste artigo procurarei aliar o meu conhecimento científico com aquele obtido pela convivência com cães de grande porte, para fazer uma abordagem genérica sobre a alimentação do Fila Brasileiro.

 

 

II) COMO ALIMENTAR CORRETAMENTE O FILA BRASILEIRO

 

A) Relação entre a alimentação e as necessidades nutricionais dos cães

 

            Os cães são classificados como animais monogástricos (com um estômago único) e diferentemente dos animais poligástricos (com o estômago dividido em vários compartimentos, p.ex. os bovinos) não conseguem digerir com eficiência alimentos ricos em fibras, portanto, sua alimentação deve conter teores de fibra entre 4 e 6%. O sistema digestivo dos cães é bem mais curto que os dos animais herbívoros e isso significa que o alimento percorre todo o seu trajeto em um tempo bem menor, tendo também menos tempo para ser digerido. A conseqüência deste fato é que a alimentação dos cães deve ser baseada em alimentos de alta digestibilidade.

            Os alimentos industrializados são formulados a partir das necessidades nutricionais dos cães que são obtidas por pesquisas feitas em laboratório de nutrição espalhados por todo o mundo. No Brasil utiliza-se a tabela de exigências nutricionais elaborada pelo National Reseach Council (NRC), órgão do Ministério da Agricultura dos EUA (USDA) que compila dados de pesquisas e, na medida em que novos resultados surgem o NRC os apresenta em forma de um livro.

            As pesquisas mostraram que existem diferenças nas necessidades de nutrientes de acordo com o tamanho do cão. Assim, cães de raças grandes e gigantes necessitam de uma menor quantidade de energia na dieta quando comparados aos cães de raças pequenas e médias. Este fato deve observado principalmente nos filhotes. Dessa forma, se o leitor observar os níveis de garantia dos rótulos das rações para cães destes dois grupos de raças, verá que aquelas destinadas às raças menores têm maiores teores de extrato etéreo e proteínas do que as destinadas às raças grandes. Sendo assim, há comprovadamente, diferenças nas exigências nutricionais de cães grandes e pequenos. Gostaria de salientar, no entanto, que ainda não dispomos de dados relativos às necessidades nutricionais de raças específicas e sendo assim, as rações para raças específicas que existem no mercado não são formuladas levando-se em consideração as necessidades nutricionais das diferentes raças, mas sim aquelas já disponibilizadas nas tabelas mencionadas acima, acrescidas de alguns ingredientes.

            Para finalizar gostaria de comentar que apesar de notarmos expressões como “alimento 100% balanceado” ou similares nos rótulos, lembrem-se que estes alimentos são balanceados na medida do conhecimento existente hoje, que como anteriormente mencionado, está longe daquele obtido para outras espécies.

 

B) Alimentos industrializados mais apropriados

 

            Para começar este tópico, precisamos entender as diferentes categorias nas quais se enquadram os alimentos industrializados para cães. Temos então os alimentos econômicos que têm preços mais baixos, os alimentos premium, que são os intermediários e os alimentos super-premium, sendo estes os mais caros. Normalmente as indústrias fabricam rações para todos os gostos e bolsos, mas algumas se especializaram em alguns dos segmentos mencionados. A variação do preço dos alimentos dos três segmentos ocorre devido a fatores como qualidade da matéria prima utilizada, o que irá proporcionar maior ou menor absorção no intestino (digestibilidade) e adição de ingredientes com a finalidade de melhorar a performance atlética, reprodutiva, prevenir ou minorar sintomas clínicos de algumas patologias. Estes ingredientes são denominados alimentos funcionais e são caros, tendo o uso justificado somente nas rações com preço mais elevado. Como não existe uma normatização para a classificação destes alimentos por parte do Ministério da Agricultura, são os próprios fabricantes que classificam os seus produtos em uma das categorias acima.

            Com relação ao teor de umidade temos três categorias de alimentos. Os secos que têm umidade próxima a 10% que são os mais comercializados, principalmente pelo menor preço e pela conservação mais fácil. No entanto, se forem formulados com altas percentagens de cereais, podem ter palatabilidade muito baixa, ocasionando a sua rejeição pelo animal. Além dos secos temos os alimentos classificados como úmidos, cujo teor de umidade médio é de 85%. Estes alimentos normalmente são bastante palatáveis, pois são fabricados com quantidades elevadas de produtos de origem animal (carnes e vísceras), podendo ser utilizados como alimento único já que são balanceados como as rações secas. A grande desvantagem deste tipo de alimento é o preço elevado. Considerando que uma lata de patê tem 340 gramas e que em média 85% do seu conteúdo é composto de água, podemos ter uma noção do quão caros são os alimentos úmidos. Para que os alimentos úmidos fiquem com a consistência de patê, os fabricantes utilizam ingredientes conhecidos como espessantes que podem ser amidos ou gomas. Estes ingredientes podem ter efeito laxativo se o animal consumir alimentos úmidos em grande quantidade sem que esteja habituado, pela sobrecarga de carboidratos no intestino o que leva a um processo de fermentação excessiva. Devemos também considerar que por conta da grande quantidade de água, para satisfazer as necessidades nutricionais de um cão a quantidade de alimento úmido a ser oferecida deverá ser bem maior do que de alimento seco, o que aumenta consideravelmente o custo da alimentação, principalmente em relação à cães da raça Fila Brasileiro. Existem ainda no mercado alguns alimentos classificados como semi-úmidos que têm mercado bastante restrito no Brasil, por isso, creio não ser necessário comentar sobre este grupo. Estes conceitos são de grande valia para que possamos entender um pouco melhor as opções de marcas existentes no mercado quando temos que escolher alimentos.

            A decisão da aquisição de um alimento para os nossos cães pode ser baseada em diferentes critérios como a qualidade, o preço e a facilidade de encontrá-lo no mercado. Como a alimentação dos cães normalmente é um item bem dispendioso na criação, devemos nos basear na relação custo benefício quando escolhemos entre as diversas marcas existentes e no que se refere a esta relação temos que o grupo dos alimentos premium é o mais vantajoso, pois é aquele que oferece um maior número de opções com qualidade bem razoável a preços mais justos. É óbvio que se for possível fornecer um alimento super-premium este será sempre a melhor escolha, quando consideramos somente o item qualidade, mas na prática da criação os custos destes alimentos são proibitivos. Temos também que considerar os alimentos da linha econômica, aqueles com preços mais baixos. Em minha opinião, sempre que possível devemos evitá-los pela baixíssima qualidade dos seus ingredientes que gera reflexos na sua digestibilidade, fazendo com que, no fim das contas, o fornecimento deste tipo de alimento não seja tão vantajoso, pois o cão terá que comer uma quantidade maior para satisfazer as suas necessidades nutricionais e dessa forma, o custo da alimentação irá aumentar. Ademais, os alimentos da linha econômica normalmente contêm grande quantidade de cereais que como comentado acima faz com tenham baixa palatabilidade. É notória a diferença no escore corporal, na pelagem, na musculatura e, portanto na aparência geral de cães alimentados com rações melhor qualidade quando comparados àqueles alimentados com rações de qualidade muito baixa.

 

C) Alimentos industrializados X Alimentos caseiros

 

            Os criadores mais antigos devem se recordar que até aproximadamente os anos de 1980, não havia alimento industrializado disponível no Brasil e, portanto a alimentação dos seus cães era feita exclusivamente com alimento preparado no canil pelos próprios criadores. O advento das rações comerciais foi de grande valia para os criadores porque diminuiu muito o trabalho despendido com a alimentação de seus animais tanto na lida diária quanto nas exposições, quando, não raro, seus cães têm que se deslocar por grandes distâncias. Estes alimentos podem alimentar os cães de forma mais equilibrada já que são formulados levando-se em consideração as suas necessidades nutricionais (pelo menos as boas marcas). Entretanto nossos cães podem perfeitamente ser alimentados com formulações caseiras, utilizando-se para isso ingredientes facilmente encontrados no mercado. O custo da alimentação caseira pode ser comparável ao de um alimento premuim de qualidade mediana mas garanto-lhes que a qualidade é bem superior. Entretanto temos que observar as proporções corretas quando cuidamos de preparar os alimentos caseiros pois do contrário estaremos alimentando os nossos animais de forma errônea o que pode ter conseqüências indesejáveis. Para o preparo das formulações caseiras pode-se utilizar ingredientes como o arroz, carne, aparas e pontas de carne (que contenham uma boa proporção de carne e não somente pelanca ou gordura), pescoço de frango, vísceras (coração, pulmões, fígado), fubá e vegetais como repolho, couve, cenoura, beterraba não esquecendo também de uma fonte de gordura que pode ser de frango ou banha de porco. As proporções depois do alimento cozido podem ser de aproximadamente: 40% de arroz ou fubá, 50% de carnes, vísceras ou pescoço 5% de vegetais e 5% de gordura. Deve-se ressaltar que o alimento deve ser muito bem cozido para que os amidos do arroz ou do milho possam ter boa absorção no intestino. Devemos dar preferência para o arroz. Com relação à fonte de proteínas podemos utilizar somente uma ou mesmo uma mistura de duas ou mais, porém, devemos utilizar o fígado com parcimônia para evitar diarréias causadas pelo excesso de minerais contido nesta víscera. A proteína contida nas vísceras não é de tão boa qualidade quanto aquela das carnes e do pescoço e a víscera com o melhor valor protéico é o coração.

            Para garantir que não haverá carência de minerais e de vitaminas nos animais, deveremos utilizar um suplemento alimentar (aminomix, glicopan e etc.) duas vezes por semana.

            Alimentar cães com estas formulações caseiras tem vantagens como a da melhor qualidade dos ingredientes e melhor palatabilidade e digestibilidade do alimento e desvantagens como maio dispêndio de tempo na sua preparação e conservação mais complicada já que estragam mais facilmente. Cabe a cada um escolher de acordo com as suas preferências.

 

D) Manejo alimentar

 

            Filhotes – Sendo a raça Fila Brasileiro de grande porte, devemos ter muito cuidado com a alimentação dos filhotes para evitar o crescimento excessivamente rápido que predispõe o animal às patologias dos ossos e das articulações como, por exemplo, a displasia coxofemural e do cotovelo. Assim sendo, rações com alto valor energético devem ser fornecidas em pequena quantidade ou mesmo evitadas. Hoje existem no mercado alimentos específicos para filhotes de raças grandes e gigantes que são especificamente formulados e garantem um crescimento mais lento, porém, estes têm valor elevado. A super alimentação dos filhotes deve ser evitada a todo custo, inclusive suplementações com cálcio e outros suplementos que aceleram o crescimento. O fato de um filhote crescer mais vagarosamente não significa que ele terá tamanho menor como é apregoado por alguns.

Até os 6 meses o filhote deverá ser alimentado pelo menos 3 vezes ao dia para favorecer a absorção de nutrientes. O alimento não deverá ser fornecido à vontade, sendo um erro manter os vasilhames com alimento sempre cheios.

            Fêmeas prenhes e paridas Os cuidados com a alimentação e com a sanidade destes grupos, são fundamentais, pois resultará em filhotes sadios e na recuperação mais rápida da mãe que mais dificilmente terá problemas reprodutivos no próximo cio. No início da prenhez as necessidades nutricionais da cadela não aumentam consideravelmente o que irá ocorrer somente nas ultimas três semanas antes do parto. Nesta fase a fêmea tende a ingerir menos alimento já que grande parte do seu abdome está ocupada pelos seus filhotes e dessa forma a sua alimentação deve ser fornecida várias vezes ao dia e deve ser composta por alimento altamente digestível e por isso é prática comum a substituição da ração de adultos pela de filhotes o que dá bons resultados. Assim como para os filhotes, devemos suplementar as cadelas gestantes somente em situações extremas, pois esta prática pode resultar em sobrepeso exagerado e dificultar o parto.

            Após a parição as necessidades nutricionais da fêmea aumentam muito, podendo ser até 2,5 vezes maiores que as das fêmeas sem filhotes. Portanto é nesta fase que devemos dispensar grande cuidado com a cadela para evitar problemas que causem efeitos nocivos ao seu ciclo reprodutivo com conseqüências em futuras coberturas e na sua produção de leite. As cadelas devem receber alimento de alta digestibilidade e grande concentração de energia sendo recomendada a substituição do alimento de adulto pelo de filhotes com o seu fornecimento várias vezes ao dia. Ao notar que a condição corporal da cadela sofreu grande deterioração, o criador pode suplementar a sua alimentação com produtos existentes no mercado para essa finalidade.

 

            Animais adultos O manejo alimentar dos animais adultos tanto machos quanto fêmeas sem filhotes é bem simples e resume-se em fornecer alimentos de forma fracionada em quantidades adequadas para minimizar a probabilidade de ocorrência da torção gástrica que acomete não somente os cães da raça Fila Brasileiro como também de várias outras raças. Além disso, o monitoramento da condição corporal dos animais é de grande importância, principalmente no que se refere ao excesso de peso, condição que sabidamente favorece o agravamento de doenças articulares e predispõe o animal a doenças metabólicas como o diabetes.

 

 

III) ROTULAGEM DOS ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS

 

            Neste tópico vamos comentar sobre o significado de algumas informações contidas nos rótulos dos alimentos para cães para facilitar a sua interpretação e a avaliação destes produtos.

Os níveis de garantia são as percentagens mínimas ou máximas, dependo do item, que o fabricante garante que estão presentes no alimento. Estas percentagens são obtidas em análises feitas em um laboratório de nutrição e são úteis para comparar diferentes produtos ou para nos ajudar a avaliar a relação custo-benefício de um produto. Devemos atentar para o fato de que estas percentagens nada nos dizem sobre a qualidade da matéria prima utilizada na fabricação do produto e, dessa forma, um alimento com uma percentagem menor de proteína não necessariamente é de qualidade inferior à outro com um percentual maior. Então temos que o termo umidade é relativo à quantidade de água contida no alimento, proteína bruta é o teor de proteína, fibra bruta o teor de fibra (normalmente entre 4% e 6%), extrato etéreo refere-se ao teor de gordura e cinzas ou matéria mineral designa o percentual de minerais do produto. Analisando os rótulos dos diferentes alimentos observamos que aqueles classificados como super-premium têm percentagens de proteína bruta e extrato etéreo mais elevadas e por isso apresentam altos teores de energia quando comparados aos alimentos dos grupos premium e econômico. Além disso os alimentos super-premuim têm percentagens menores de fibra e contam com a adição de fibras especiais que melhoram a absorção intestinal dos nutrientes, além de minerais quelatados que também são melhor absorvidos.