No início da década
de 70 estava eu envolvida com a criação de cinco filhos, a lida
normal de casa e com os afazeres da fazenda em que resido que,
àquela época, podia assim ser chamada, pois ainda não se via
“abraçada” pela cidade de Valença, sul do Estado do Rio de
Janeiro.
Alguns cavalos da
Raça Mangalarga, com os quais pretendia começar um pequeno
haras, o gado leiteiro e as criações tradicionais de qualquer
sítio ou fazenda eram, até então, meu universo de criação
animal. De cães havia somente alguns Pointers Ingleses
de meu marido, criados, treinados e utilizados para caça. E foram
justamente essas caçadas que foram as responsáveis pelos
primeiros contatos com a raça que seria minha paixão e
identificação por todos esses anos.
Foi em uma viagem de
férias, acompanhando meu marido em algumas dessas regiões de
caça, cujos destinos principais eram fazendas no interior do
Estado de Minas Gerais, que tomei contato com aqueles “cães de
fazenda”, cuja primeira informação que recebi dos donos foi:
“-são desconfiados de dia e perigosos de noite”. Não lhes dei
maior importância na hora. Vivam soltos com o restante da
criação e, honestamente, eram muito pouco atraentes.
No retorno à
Valença, comentando detalhes da viagem com meu compadre Alberto
Morais, ele comentou que estava à procura desses cães com o
intuito de presentear alguns amigos da cidade de Teresópolis,
Estado do Rio de Janeiro. Por coincidência, na mesma época, meu
marido também queria presentear alguns amigos fazendeiros de
Minas Gerais e sabíamos que estes haviam possuído desses cães e
os perdidos em razão de doenças. A sorte, ou melhor, a “Boa
Sorte”, estava lançada: iríamos procurar os tais Filas
Brasileiros.
A busca não foi fácil, eu era apenas uma novata sem maiores
conhecimentos, o plantel disponível sofria de uma terrível
irregularidade e a Raça, em começo de ascensão, se via
cercada de muitas pessoas e
interesses, nem todos honesta ou verdadeiramente focados nela.
Acabamos por nos decidir em obter os tais filhotes no Canil
Jiruá, de propriedade do casal deBiase e situado no Rio de
Janeiro. Foram escolhidas duas irmãs: Catânia e Catalã do
Jiruá. Ainda havia o propósito de presentearmos nossos
amigos, todavia após a chegada dos filhotes em Valença e o
sentimento que despertaram em todos, foi inevitável sua
permanência aqui. Ninguém queria se desfazer delas. Era o
embrião do Canil Boa Sorte mostrando seus primeiros sinais
de vida.
Catânia (Capitu) e
Catalã do Jiruá (Chica) logo se juntaram a Hur dos Pampas
(Tato), Ciça de Dom Fernando e Iara de Piraí para formarem meu
primeiro plantel. Utilizei no início, também, por cortesia do
Canil Jiruá, o macho Beduíno do Amazonas, muito premiado à
época, com o qual cruzei as fêmeas algumas vezes.
Naquele início, foi fundamental a ajuda, incentivo e
confiança oferecidos por Fernando Young,
proprietário do Canil Piraí, localizado na cidade
homônima, no sul do Estado do Rio de Janeiro. Abriu as
portas de seu canil para meu uso, seus arquivos de
pedigrees para meus estudos e se mostrando uma pessoa da
mais alta lealdade e honestidade no convívio dentro e
fora do canil, uma pessoa verdadeiramente importante e
decisiva para mim naqueles tempos e lhe serei sempre,
honesta e imensamente grata.
O nome “Boa Sorte”
surgiu de forma aleatória. Após várias tentativas para registro
de nome de canil negadas, por duplicidade ou semelhança, alguém
próximo me falou que para conseguir o registro “só tendo uma boa
sorte”, como faltava uma opção ainda de nome, lá se foi “Boa
Sorte” e deu certo.
Não tenho o que
reclamar das primeiras ninhadas, principalmente B e C. Calouro,
Camurça, Barão, Boiadeiro, Baiana e Bororó foram animais que
deram o primeiro impulso forte à minha criação, com vários
títulos e renome nacional. Ao que tudo indicava, eu havia
começado bem e a “boa sorte” estava ao meu lado.
Entretanto, eu não
possuía quantidade e variedade de cães para seguir com a criação
de modo independente. Precisava ainda buscar cruzamentos em
outros canis, e aí começou um grande e recorrente problema das
criações: achar bons cães.
Insatisfeita com o
tipo de cão e os resultados que encontrava na maioria dos canis
em minha região, retornei à Minas Gerais, agora já na capital
Belo Horizonte em tempos do saudoso Clube Mineiro do Cão Fila
Brasileiro - CMCFB, onde consegui dar prosseguimento à criação
Boa Sorte tanto pela aquisição de novos exemplares
ou acerto de coberturas com cães locais mas, acima
de tudo, tendo contato com pessoas, cães, linhas de sangue, fatos
e acontecimentos que hoje compõem parte de meu acervo
pessoal de conhecimentos, experiências e amizades.
Além da natural
influência pela proximidade geográfica entre Valença e Minas
Gerais, minhas afinidades com o tipo de cão vindo de lá
transformaram meu canil na criação carioca mais “mineira” do
Estado do Rio.
De lá para cá muitas
coisas passaram, surgiu o CAFIB, o BKC se transformou em CBKC,
criou-se o UNIFILA e o Fila Brasileiro atravessou tempos bons e
ruins. Procurei passar por todos esses momentos sempre tomando o
partido dos cães, fosse ele qual fosse e de que lado ele
estivesse, evitando polêmicas desnecessárias que somente
alimentaram o conflito de informações a respeito do Fila
Brasileiro.
Já na década de 80
e, principalmente, no início da de 90 pude observar as
exportações de cães Filas se expandirem muito e acompanhei o
nascimento de vários pólos de criação ao redor do planeta,
alguns dos quais muito me orgulham de ter participado, enviando
cães ou, simplesmente, dando suporte de conhecimentos. Hoje,
fico muito feliz de vê-los todos como criadores de sucesso em
seus locais e tê-los como amigos.
Já há um bom tempo,
conto no canil com o apoio de meu sobrinho, e handler
“exclusivíssimo” Joaquim Liberato Barroso (Quinzinho) que,
munido de uma bagagem técnica e capacitação muito boa, após ter
conduzido com muita eficiência um projeto internacional do Canil
Boa Sorte e, evidentemente, ter possuído a professora que teve,
deverá ser meu provável sucessor na condução da criação.
Quinzinho, apesar de saber tudo com um Fila na guia e na pista,
não dispensa os conselhos da “tia” na criação. Acredito que
fazemos uma ótima dupla.
Bem, O Canil Boa Sorte é isso. Uma criação de
cães da Raça Fila Brasileiro cuja experiência ensinou que,
mais importante do que
ícones ou expoentes, o bom resultado se faz com volume de
transmissibilidade genética de boa qualidade, visando sempre o
cão mais equilibrado e próximo do padrão oficial possível e que
possa fornecer várias gerações de boa genética à frente. |
|